Pelo sexto ano consecutivo, a cidade holandesa de Utrecht está empregando uma ferramenta incomum para ajudar nas migrações de peixes na primavera: a campainha do peixe. Este projeto permite que qualquer pessoa com conexão à Internet ajude a abrir uma eclusa de canal do século XVII, garantindo que os peixes possam chegar aos locais de desova.
O problema: infraestrutura envelhecida e necessidades migratórias
A extensa rede de canais e vias navegáveis dos Países Baixos inclui muitas eclusas, barragens e outras estruturas feitas pelo homem. Embora essenciais para a navegação e a gestão da água, estas estruturas representam um obstáculo significativo à migração dos peixes rio acima para desovar. A eclusa Weerdsluis em Utrecht, que remonta a 1600, requer um esforço manual substancial – 30 a 60 minutos girando uma roda de ferro – para funcionar. Os operadores de eclusas necessitam de confirmação de que os peixes estão à espera antes de dedicarem tempo e recursos.
Sem intervenção, os peixes podem ficar presos, perdendo janelas cruciais de desova ou tornando-se vulneráveis a predadores. Isto é especialmente crítico no início da Primavera, quando a temperatura da água começa a subir, desencadeando migrações, mas o tráfego comercial ainda é fraco e as eclusas permanecem frequentemente fechadas.
A solução: uma comunidade global de defensores dos peixes
Os ecologistas Anne Nijs e Mark van Heukelum criaram a Fish Doorbell em 2021. Eles instalaram uma câmera subaquática e criaram um site onde voluntários podem monitorar a transmissão ao vivo. Quando um peixe parece pronto para passar pela eclusa, os espectadores simplesmente “tocam a campainha”, alertando os operadores para abrirem os portões.
O projeto cresceu além das expectativas. Inicialmente, a equipa temia o desinteresse, mas só em 2023 o local atraiu mais de 2,3 milhões de visitantes que, em conjunto, apertaram a campainha 200 mil vezes, permitindo que milhares de peixes continuassem a sua viagem.
Além da fechadura: um modelo para a harmonia entre humanos e vida selvagem
O Fish Doorbell é mais do que apenas uma solução operacional; é uma demonstração de como a ciência comunitária pode unir as necessidades humanas e as preocupações ambientais. O projeto proporciona um “sentimento positivo” aos participantes, muitos dos quais acham que observar os peixes é calmante.
O sucesso em Utrecht já despertou o interesse de outros países que enfrentam desafios semelhantes, sugerindo que o modelo Fish Doorbell – ou variações do mesmo – poderia tornar-se uma solução mais ampla para mitigar o impacto das infraestruturas na vida selvagem.
A história da Fish Doorbell mostra que às vezes as soluções mais simples e colaborativas são as mais eficazes. É um lembrete de que mesmo infraestruturas centenárias podem ser adaptadas para coexistir com o mundo natural.

















