Vestindo naufrágios: quando a história chega à pista

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A maioria das pessoas pensa em piratas e ouro. Não é alta costura.

Quando um navio naufragado surge, ele geralmente vai direto para a vitrine de um museu. Estudado. Preservado. Esquecido. Não é assim aqui. Na Finlândia, os cientistas pegaram madeira de um naufrágio de 1600, transformaram-na em tecido e tricotaram-na num vestido. Na verdade, usei. Este é o Vestido Naufrágio, uma colisão de dois anos entre arqueologia marítima, química e alta costura.

Não é apenas um truque.

“O património cultural subaquático é muitas vezes invisível”, disse Minna Koivikko, da Agência Finlandesa do Património. “É quase como um porta-voz da história – com um toque moderno”, disse ela, chamando a peça de roupa de uma forma de arrastar a história morta para a nossa vida quotidiana.

O Naufrágio de Hahtiperä

O material de origem? Um navio de carga chamado Hahtiperä, encontrado ao largo de Oulu em 2017. A madeira é datada de 1684. Cultivada nas florestas de Ostrobothnia, no sudoeste da Finlândia, depois pregada, depois afundada e depois recuperada.

Aqui está o problema: parte daquela madeira foi para a lixeira. O trabalho de conservação deixa fragmentos que não cabem nas vitrines. Eles foram documentados, sim, mas inúteis. Desperdiçado. Koivikko não gostou disso. Ela começou a se perguntar se aqueles fragmentos teriam um segundo ato.

Ela pegou químicos. Ela agarrou designers. Ela chamou especialistas florestais. O objetivo? Faça a madeira morta funcionar novamente.

Da podridão encharcada à fibra semelhante à seda

O herói da tecnologia é a bioengenheira Inge Schlapp-Hacks. Ela não apenas lixou. Ela retirou as camadas externas para expor o núcleo da madeira com mais de 300 anos. Depois desfiado. Em seguida, dissolvi em polpa.

Usando o processo patenteado Ioncell®, eles trataram a polpa com líquidos iônicos – solventes que transformam a celulose em fibras sem produtos químicos tóxicos. Sem algodão. Sem poliéster. Apenas células de árvores antigas, reorganizadas.

“As fibras Ioncell® têm um toque sedoso”, explicou Schlapp-Hacks. Mais forte que o algodão também. E olha esse tom marrom? Não tingido. Não branqueado. A cor vem do próprio naufrágio.

O fio que eles fiaram era surpreendentemente resistente. Eles usaram um programa de computador para desenhar padrões, economizando energia, e depois tricotaram os vestidos usando máquinas Shima Seiki. Uma pedaço. Sem costura. Tridimensional. Zero desperdício de tecido. Porque por que desperdiçar alguma coisa quando você está tentando salvar um planeta?

Uma lição sobre desperdício

Pirjo Kääriäinen, da Universidade de Aalto, passou quinze anos pesquisando isso. Ela está esperando por materiais que façam sentido. Este vestido? É uma declaração sobre o consumo.

“Um naufrágio é um caso excepcional”, admitiu Kääriäinen. “Mas isso faz as pessoas pararem.”

Se madeira podre centenária pode se transformar em roupas bonitas, qual é a nossa desculpa para jogar fora restos modernos?

O vestido chega ao Museu de Arte de Oulu em 22 de maio. Uma peça gêmea aguarda no desfile Designs for Cooler Planet da Universidade de Aalto em setembro.

Talvez da próxima vez que você vir madeira velha, pense em seda.